quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Paco de Lucía In La Caña



Segue a tradução de uma entrevista de Paco (original em inglês encontrado aqui):


Essa entrevista foi originalmente publicada em La Caña (nº3) junho de 1992.


Paco começou a tocar e estudar violão quando tinha 6 anos de idade. O violão era como uma via de diálogo dele com o seu pai. Em suas palavras: “Eu devo tudo ao meu pai. Ele me forçou a tocar quando eu era uma criança, quando você não tem capacidade de decidir o que você quer fazer na vida. É aí que você precisa de alguém para te pressionar, para te mostrar o caminho. Isso foi o que meu pai fez, dentre outras coisas, já que ele não podia me mandar para escola, por que não havia dinheiro em casa. Eu tive que achar um trabalho e trazer o salário para a família."


Você tem algum complexo por não ter ido à escola?


Eu tinha. Existem situações em que eu me arrependo de não ter tido acesso à cultura, não ter eloquência numa conversa, de não estar atualizado... Mas quando você fica mais velho você se acostuma ao seu jeito de ser, aceitando quem você é. Quando você é jovem você quer ser algum tipo de super homem. E, é claro, isso o leva à complexos, medos e timidez.


Existe alguma arte cujo incentivo seja a fome?


A fome é um incentivo importante, ela te leva à maturidade; eu aprendi isso com a experiência. Muitos artistas clamam que chegaram aonde chegaram independentemente da fome, mas eu acredito que uma pessoa alcança muito mais coisas graças à fome; por que se você nasce com a barriga cheia você tem menos incentivos.


Sua imaginação vai contra o senso comum?


Senso comum é limitado, já que ele depende da sua capacidade intelectual. Imaginação não tem limites, e algumas vezes minha imaginação vai contra o senso comum. Às vezes eu me arrependo de não conhecer teoria musical, por que é como não saber a razão, a técnica, matemática; mas inconscientemente, a ignorância faz você voar mais alto ou, pelo menos, faz você voar e pousar em lugares onde a razão não pousaria.


Sabicas (compositor espanhol de música flamenca) costumava dizer que há mais entusiasmo para violão flamenco nos EUA do que na Espanha.

Sim, é verdade. Nos EUA as pessoas tem uma boa educação musical e muitas pessoas jovens se interessam pelo flamenco, mas na Espanha é que você encontra as pessoas que realmente “sabem”.

O flamenco é patrimônio dos ciganos?

Os ciganos dizem que eles vem criando música flamenca a 5 séculos. Tirando sua dedicação e a vivência com o flamenco, eles tem uma habilidade artística, uma expressão e um temperamento apropriado para o flamenco. Isso não quer dizer que aqueles que não são ciganos não são qualificados; as pessoas que são criadas e mantém contato com os ciganos são geralmente talentosas: Antonio Chacón, El Nino Ricardo e muitos outros. Não, não é patrimônio de ninguém, é patrimônio da pessoa que o toca desde que nasceu; música flamenca é assim.

O dogmatismo limita a evolução do flamenco?

Geralmente, pessoas do flamenco são dogmáticas, isso pode ser uma boa coisa, mesmo com a evolução sendo mais lenta. Eu não concordo com puristas: Eles não permitem as pessoas cantarem ou tocarem como elas querem. Eles fazem um exame sobre o que você tocou ou sobre o desenvolvimento que você promoveu e verificam se está de acordo com o contexto, a essência do flamenco; eles admitem isso cedo ou tarde. De qualquer maneira, sem os puristas, cada um ia fazer da maneira que desejasse, ainda mais nos dias de hoje. Eu considero tudo válido se você sabe como contrabalancear as coisas.

Como pode o primitivismo do flamenco combinar com a procura de novas harmonias?

Bom, você segura a tradição com uma mão, e com a outra você arranha, você vasculha. É muito importante você não perder a tradição, por que a essência, a mensagem, a base está nela. Com a tradição você pode ir em qualquer lugar e correr para longe, mas sem largar as raízes; de fato, a identidade, a fragrância e o sabor do flamenco está nela.

Qual é o papel do flamenco dentro da cultura européia?

Eu acredito que o flamenco seja a cultura mais importante da Espanha, eu diria até da Europa. De alguma maneira, o flamenco representa a cultura espanhola, mesmo se muitas pessoas não gostarem de tal globalização. Flamenco é andaluza; o basco, o galego, o catalão não tem nada a ver com isso. Então eu acredito que eles não gostam de ser conhecidos fora da Espanha por causa do flamenco. Mas Andalucía é uma parte importante da Espanha. Flamenco é uma música incrível, tem uma enorme força emocional, um ritmo e um feeling que bem poucos ritmos folclóricos europeus têm.

Você acredita que Francisco Sánchez (nome real de Paco) é realmente Paco de Lucía?

O Paco de Lucía real, o músico, o que sobre ao palco, é realmente Francisco Sánchez. E aí há o Paco de Lucía, a personalidade, o que usa a máscara e é condicionado por muitas coisas, ele não é músico puro. Fora do palco você tem que fazer concessões, aparecer na TV, dar entrevistas e usar um sorriso legal para as pessoas não pensarem que você é estúpido. Eu tenho tentado tornar o Paco e o Francisco o mais próximo possível um do outro, mesmo assim eu não tenho sucesso sempre, por causa da carreira que eu escolhi ou pelas circunstâncias da vida.

O sucesso é baseado na lavagem cerebral do público?

O artista deseja ser entendido, deseja se comunicar e provar que ele está com a verdade. Não tenho certeza sobre até que ponto você quer fazer a lavagem cerebral no público mas... sim, tem uma certa razão essa idéia. Talvez o sucesso seja fazer realmente a lavagem no público.

Você acha que quanto mais você tem acesso à maioria você se torna menos você mesmo?

Sim, mas um artista deve ter fé em si mesmo, deve gostar de si mesmo e acreditar, por que isso é o que ele automaticamente reflete e isso é o que chega até o público. As pessoas dizem que para se ser universal você deve ser primeiro da sua cidade. Eu acredito que se você for pensar somente sobre o que os outros gostariam, você fica louco, se perde.

Você se preocupa em correr o risco de falhar?

Sim, muito. Não sei se é por causa do egoísmo ou por que eu preciso de afeição, ou talvez os dois...

O dinheiro simboliza a cumprimento do dever uma pessoa, o sinal de que você ofereceu para o mundo o que ele desejou ter?

Viver numa sociedade, e dentro de um sistema, é como um jogo onde dinheiro significa que você ganhou: você ganha dinheiro fazendo algo que todo mundo gosta. No caso do artista, dinheiro é o reconhecimento de um trabalho válido, só isso. Eu imagino que o dinheiro que uma pessoa desonesta ganha aplicando golpes nos outros, por exemplo, não faz com que essa pessoa tenha o mesmo sentimento. Você tem que saber como dar valor ao dinheiro por que é fácil cair na armadilha de ficar querendo mais e mais dinheiro, mesmo tendo mais do que você pode gastar. Quando chega à esse ponto, as coisas se tornam prejudiciais e perigosas.

O demônio, graças a Deus, está voltando?

Eu tenho uma vida intensa, em que cada dia é diferente dos outros; eu mudo constantemente de cenário, e algumas vezes é desagradável e monótono. Eu imagino pessoas levando uma vida monótona, levantando todo dia na mesma hora e trabalhando numa coisa que elas não gostam, e, é claro, elas criam fantasias e acreditam nelas. Se o diabo é válido, então vida longa para o diabo! Contanto que as pessoas não morram de desgosto e que as moscas não as comam. Mas se isso é efetivo ou não, é outra situação.

Você trouxe o flamenco mais próximo de pessoas que gostam de rock?

Sim, muitos jovens vem aos meus concertos. Flamenco é um estilo elitizado e muitas pessoas que talvez não gostem de flamenco, vem aos meus concertos por outras razões; por causa da técnica ao violão, por causa do ritmo ou só curiosidade. Eu não sei por que. Talvez eu tenha ficado popular juntamente com o flamenco e isso não é comum; pode acontecer isso com os fãs de flamenco, mas não com as grandes massas.

O que você acha do estilo Fusion?

Fusion pode dar frutos, embora eu não acredite nisso. Em meus trabalhos com Larry Coryell, John McLaughlin ou Al Di Mela, a música não era nem flamenco nem jazz, foi uma fusão de músicos, não de música.

Qual é sua definição de música?

Eu não sei como definir a música por que eu não sou músico tecnicamente formado. Eu entrei, vivi, e ainda vivo, com a música através de percepção intuitiva.

Você persegue a musa e a deixa mensagens?

Eu sempre acreditei que a musa viria quando ela quisesse, mas isso não é verdade, ela vem quando você está trabalhando. Quando você está inspirado as idéias parecem fluir melhor, mas você tem que pegar o violão todo dia e escrever num papel para ver se algo sai. Eu escrevo milhares de vezes, e aí eu vejo de novo o que escrevi e se eu achar algo que gosto, eu tento desenvolver a idéia.

O artista é um artista somente quando ele trabalha?

Pessoas são basicamente as mesmas, não importa o que façam. Um ciclista pode ser um artista e um cantor de flamenco pode ter um espírito de atleta. Sob essa perspectiva, todos nós temos sensibilidade comum, risada, choro, tristeza, a única coisa é que nossas circunstâncias são diferentes. Eu acredito cada vez menos no rótulo “ocupação: artista”. Eu não gosto de rótulos. O fato de eu tocar violão não me dá um título, por que quando se fala em trabalho, eu sou trabalhador. Arte é natural do ser humano. Uma pessoa pode expressar arte de várias maneiras, mesmo sem cantar, pintar, tocar algo ou escrever. Muitas pessoas praticam como artistas e elas nunca serão artistas. Outras, mesmo sendo artistas, trabalham numa atividade artística. Mesmo que elas não tenham a técnica, elas sabem por que o fazem e como fazer. Você tem aqueles cantores de flamenco que gritam e que de repente produzem algo com a qualidade e o feeling de um gênio. O mesmo acontece nas touradas; existem toureiros como Rafael de Paula ou Curro Romero, por exemplo, que são grandes artistas, mesmo eles não tendo uma técnica elaborada.

Paco fecha então com o seguinte:

O tempo vai contra você. Você envelhece, perde energia, sua imaginação diminui, e, além de tudo, você tem menos incentivos. Agora eu só trabalho para manter o prestígio que eu tenho. O único incentivo é encontrar uma pessoa em algum lugar qualquer do mundo que te diz que a vida dela mudou quando ela ouviu suas músicas e que ela aprendeu a tocar violão por sua causa.”
Reblog this post [with Zemanta]

2 comentários:

.:.A Luciana.:. disse...

Caramba, BOnd... e o cara ainda diz que não é eloquente? Que isso, modéstia! Acho que as perguntas ajudaram bastante, foram muito boas. Dentre as várias coisas que ele falou, gostei de duas...

"Quando você é jovem você quer ser algum tipo de super homem. E, é claro, isso o leva à complexos, medos e timidez."

E...

"Senso comum é limitado, já que ele depende da sua capacidade intelectual. Imaginação não tem limites..."

Acho que as frases se explicam sozinhas, né?

Abraço!

PS - Mallu Magalhães, eeeeeeeeeca! Muito, mas muito fraquinha mesmo!

Daniel disse...

Pois é né, Lu, coisa de louco. O que mais me impressionou na entrevista foi saber que ele nunca foi à escola e nem conhece nada de teoria musical, kkkkk. Coisa de louco né, agora como explicar o cara tocar daquele jeito incrível e compor músicas bonitas pra caramba, altas melodias, sem conhecer nada de teoria?
É coisa da mente mesmo, que percepção incrível que ele tem.

Foi bem filosófica essa entrevista né, Lu, eu curti bastante quando li.