Afinidade (de Arthur da Távola)

Esse texto é de autoria de Arthur da Távola. Ex-senador e jornalista, atuou em diversos campos culturais. Ele apresentava um programa na TV Senado chamado "Quem tem medo de música clássica?", programa rico em informações sobre música erudita, sempre ressaltando a música brasileira.


Arthur da Távola faleceu no ano passado, vítima de problemas cardíacos, aos 72 anos, em sua casa, no Rio de Janeiro. Deixou vários livros e textos para a posterioridade. Um deles é esse que coloco abaixo.


Já havia postado esse texto em outro blog meu, um dos abandonados esquecidos, mas aqui vai de novo:



Afinidade


A afinidade não é o mais brilhante, mas é o mais sutil, delicado e penetrante dos sentimentos. O mais independente também. Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, as distâncias, as impossibilidades. Quando há a afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o dialogo, a conversa, o afeto no exato ponto em que ele foi interrompido. Afinidade é não haver tempo mediando a vida. É uma vitória do adivinhado sobre o real. Do subjetivo sobre o objetivo. Do permanente sobre o passageiro. Do básico sobre o superficial.


É raro. Ter afinidade é muito raro. Mas quando ela existe não precisa de códigos verbais para se comunicar. Ela existia antes do conhecimento, irradia durante e permanece depois que as pessoas deixaram de estar juntas. O que você tem dificuldade de expressar a alguém, sai simples e claro de sua boca diante de alguém com quem você tem afinidade.


Afinidade é ficar longe pensando parecido e respeito dos mesmos fatos que impressionem, comovem ou sensibilizam. É ficar conversando sem trocar uma palavra. É receber o que vem do outro com uma aceitação anterior ao entendimento. Afinidade é sentir “com” quanta gente ama loucamente, mas sente “contra” o ser amado. Quantos amam e sentem “para” o ser amado e não para eles próprios. Sentir “com” é não ter necessidade de explicação do que esta sentindo. É olhar e perceber. É mais calar do que falar. Ou quando é falar, jamais explicar, apenas afirmar.


Só entra em troca rica com o outro quem aceita, para poder questionar. Quem aceita para poder questionar não nega ao outro a possibilidade de ser o que é, como é, da maneira que é. E uma vez aceitando-o, aí sim, pode questionar, até duramente, se for o caso. Isso é afinidade. Mas o habitual é a gente ver questionar exatamente por que não aceita o outro como ele é. Questionamento de afins, eis a guerra.


A afinidade é um sentimento singular, discreto, independente. Não precisa do amor. Pode existir quando ele esta presente ou quando não está. Independente dele. Pode existir a quilômetros de distancia. É adivinhado na maneira de falar, de escrever, de andar, de respirar.


A afinidade é uma espécie de linguagem secreta do cérebro humano, ainda não estudada. Ela seguramente está naquela parte que os cientistas dizem ser a maior parte ainda não suficientemente explorada e usada por nós. Dessa misteriosa e grandiosa parte do cérebro, sai a linguagem sem palavras da afinidade. Quem pode nos afirmar que, durante o sono, fluidos nossos não saem para buscar sintonias com pessoas distantes, com amigos a quem não vemos, com amores latentes?


Além de prescindir do tempo a ser a ele superior, a afinidade vence a morte porque cada um de nós traz afinidades ancestrais, com a experiência da espécie no inconsciente. Ela se prolonga nas células dos que nascem de nós para encontrar sintonias futuras nas quais estaremos presentes.


Sensível é a afinidade. E exigente apenas numa coisa: que as pessoas evoluam cedo. Que a erosão amadurecimento ou aperfeiçoamento sejam do mesmo grau nas pessoas. Porque o que define uma afinidade é a sua existência também depois.


Afinidade é ter estragos semelhantes a iguais esperanças permanentes. Afinidade é conversar no silencio, tanto das possibilidades exercidas quanto às impossibilidades vividas.


Afinidade é retomar a relação no ponto em que parou sem lamentar o tempo da separação. Porque ele (o tempo) e ela (separação) nunca existiram. Foram apenas as oportunidades (tirada) pela vida, para que a maturação comum pudesse as dar. E para que cada pessoa possa ser, cada vez mais a expressão do outro sob a forma ampliada e refletida do eu individual aprimorado.

(Artur da Távola)



Blog do Arthur da Távola


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