quinta-feira, 23 de julho de 2009

Caras durões escrevem poesia (parte 4)


Parte 4 da entrevista do Buk adiante:

Sobre as pistas de corrida de cavalos:

Eu tentei me sustentar com a grana das apostas durante um tempo. É doloroso. É muita adrenalina. Tudo está em jogo – o aluguel – tudo. Mas você tende a ser cuidadoso demais... não é o mesmo.

Uma vez eu estava sentado perto de uma das curvas. Eram 12 cavalos na corrida e eles ficaram todos amontoados. Era como uma grande explosão. Tudo que eu via eram os traseiros dos cavalos subindo e descendo. Pareciam selvagens. Olhei para aqueles traseiros e pensei “Isso é loucura, loucura total!”. Mas aí tem dias que você ganha 400 ou 500 dólares, você ganha 8 ou 9 corridas em seguida, você se sente um deus, acha que conhece tudo. Tudo se encaixa bem.

(Ele para mim:).

CB (Charles Bukowski): Nem todos os seus dias são bons, não é?
SP (Sean Penn): Não.
CB: Alguns deles são bons?
SP: Sim.
CB: Muitos deles?
SP: Sim.
(Depois de uma pausa, uma risada de surpresa)
CB: Eu imaginei que você fosse responder “Só alguns...” Que desapontamento!

Frank, um cara que trabalha fazendo a limpeza das pistas, é gente boa. Às vezes, estou indo embora e ele me diz “Bem, como vai você, cara?”. Eu digo “Merda, eu estou pronto para atacar a jugular... jogue a bandeira branca, cara. Já basta.” Ele diz “Ah, que nada, cara! Vamos lá! Vou te dizer uma coisa. Vamos sair hoje a noite e chapar. Vamos chutar uns traseiros e chupar bucetas.” Eu digo “Frank, deixe-me pensar sobre isso”. Ele me diz “Sabe, quanto mais pioram as coisas, mais sábio eu me torno”. Eu digo “Você deve ser um cara bem sábio, Frank”. Ele diz “Você sabe que é uma boa coisa a gente não ter se conhecido quando éramos jovens”. Eu digo “Isso, eu sei o que você vai dizer, Frank. Estaríamos os dois em San Quentin*”. “Isso aí!” ele responde.

[* Uma prisão situada em San Rafael, Califórnia]

Sobre pessoas:

Eu não olho muito para as pessoas. É perturbador. Dizem que se você ficar muito tempo olhando para uma pessoa, você começa a parecer com ela. Pobre Linda.

Posso viver sem a grande maioria das pessoas. Elas não me completam, me esvaziam. Eu não tenho respeito pelos homens. Tenho um problema nesse sentido... Estou mentindo, mas pode acreditar em mim, é verdade.

Sobre ser reconhecido nas pistas de corrida:

Outro dia eu estava sentado lá e senti que estavam olhando para mim. Eu sei o que está por vir, então eu levanto para ir para outro lugar, sabe? Aí ele disse “Da licença”. E eu disse “Sim, o que foi?”. Ele disse “Você é o Bukowski?”. Eu disse “Não!”. Ele disse “Eu imagino que as pessoas devam te perguntar isso o tempo todo, não é?”. E eu disse “Sim!” e vou embora. Você sabe, falamos sobre isso antes. Não há nada como privacidade. Sabe, eu gosto das pessoas. É legal que elas possam gostar dos meus livros e tudo mais... mas eu não sou o livro, entende? Eu sou o cara que escreveu, mas não quero que elas venham e joguem rosas em mim ou algo do tipo. Eu quero que elas me deixem respirar. Elas querem sair junto comigo. Elas acham que eu vou trazer umas putas, música selvagem e que vou socar alguém... sabe? Elas lêem as histórias. Merda, essas coisas aconteceram a 20, 30 anos atrás, baby!

Sobre a fama:

É a destruidora. É a puta, a cadela, a maior destruidora de todos os tempos. Eu ganhei uma fama mais leve por que sou famoso na Europa e desconhecido aqui. Sou um dos caras mais afortunados das redondezas. Sou um cão sortudo. Fama é realmente terrível. É uma medida na escala do denominador comum, mentes trabalhando num nível inferior. Não tem valor nenhum. Uma audiência seleta é bem melhor.

Sobre solidão:

Eu nunca fiquei solitário. Já estive numa sala – Já me senti suicida. Já fiquei deprimido. Já estive muito mal – pior que tudo – mas nunca pensei que uma pessoa poderia entrar naquela sala e curar tudo que estava me incomodando... ou que qualquer número de pessoas poderiam entrar naquela sala. Em outras palavras, a solidão é algo que nunca me chateou por que eu sempre tive essa terrível vontade, esse quê que me fazia estar só sempre. É estando numa festa ou num estádio lotado de pessoas torcendo para algo que eu posso sentir a solidão. Vou citar Ibsen* “Os homens mais fortes são os mais solitários”. Eu nunca pensei “Bom, alguma loira linda vai entrar aqui e foder comigo, acariciar minhas bolas, e eu vou me sentir bem”. Não, isso não irá ajudar. Você conhece a típica multidão que diz “Uau, é sexta à noite, o que você irá fazer? Só ficar aí sentado?” Bem, sim. Por que não há nada lá fora. É estupidez. Pessoas estúpidas se misturando com pessoas estúpidas. Deixem elas se tornarem cada vez mais estúpidas. Eu nunca fiquei incomodado com a ansiedade e a pressa de sair pela noite a fora. Eu me escondia em bares por que não queria me esconder em fábricas. Isso é tudo. Sinto pelos milhões, mas eu nunca me senti solitário. Eu gosto de mim mesmo. Eu sou a melhor forma de entretenimento que eu tenho. Vamos beber mais vinho!

[*Henrik Johan Ibsen (1828-1906) foi um poeta norueguês]

Sobre lazer:

Isso é muito importante – tirar um tempo para lazer. O ritmo é a essência. Sem parar completamente e ficar sem fazer nada por longos períodos, você perderá tudo. Seja você um ator, qualquer coisa, uma dona de casa... tem que existir grandes pausas onde você fique sem fazer nada. Você simplesmente deita numa cama e olha para o teto. Isso é muito importante, muito importante... só não fazer nada, muito, muito importante. E quantas pessoas fazem isso na sociedade moderna? Muito poucas. Aí está por que elas estão totalmente loucas, frustradas, com raiva e ódio. Em tempos antigos, antes de eu me casar, ou de conhecer muitas mulheres, eu simplesmente fecharia todas as cortinas e iria para a cama por uns 3 ou 4 dias. Levantaria para cagar. Comeria uma lata de feijões, voltaria para a cama e ficaria lá por 3 ou 4 dias. Aí eu vestiria minhas roupas, sairia para andar lá fora, e a luz do sol era brilhante, os sons eram ótimos. Me sentiria poderoso, como uma bateria recarregada. Mas você sabe qual a primeira queda de energia? A primeira face humana que vi na calçada, perco metade da minha energia bem nesse momento. Essa monstruosa, vazia, idiota, insensível face, cheia de capitalismo – o “pulverizador”. E você pensa “Nossa! Isso o tirou metade da energia”. Mas ainda assim valeu a pena, eu tenho ainda mais metade. Pois então, sim, lazer. E eu não quero dizer ter pensamentos profundos. Quero dizer não ter pensamento nenhum, nada. Sem pensamentos de progresso, sem pensar sobre você mesmo ou sobre tentar ir mais longe. Só... como uma briga. É lindo.

Sobre beleza:

Não existe essa coisa de beleza, especialmente no rosto humano... o que nós chamamos de fisionomia. É tudo um alinhamento matemático e imaginário de traços. Como, se o nariz não for muito longo, os lados estão na moda, se as orelhas não forem muito grandes, se o cabelo é longo... é como uma miragem de generalização. Pessoas acham que certas faces são bonitas, mas, realmente, na medida final, não são. É uma equação matemática de zero. “Beleza real” vem, é claro, do caráter. Não através da forma das sobrancelhas. Tantas mulheres que me dizem serem bonitas... diabos, é como olhar dentro de uma travessa de sopa.

Sobre feiúra:

Não existe tal coisa de feiúra. Há uma coisa chamada deformidade, mas “feiúra” externa não existe... e tenho dito.

Era uma vez:

Era inverno. Eu estava extremamente faminto tentando ser um escritor em Nova York. Não tinha comido nada a uns 3 ou 4 dias. Então, eu finalmente falei “Eu vou comer um grande saco de pipocas”. E Deus, não comia nada a tanto tempo, foi tão saboroso. Cada grão, sabe, cada um era como um bife! Eu mastiguei e isso chegou ao meu pobre estômago. Meu estômago disse “OBRIGADO OBRIGADO OBRIGADO!”. Eu estava no paraíso, somente andando, e dois caras passaram e um disse para o outro “Jesus Cristo!”. E o outro “O que foi?”. “Você viu aquele cara comendo pipoca? Deus, foi nojento!”. E aí eu não consegui curtir o resto da pipoca. Eu pensei; o que quis dizer com “Foi nojento?”. Eu estou no paraíso aqui. Eu acho que eu fui um pouco porco. Eles sempre podem ver um cara fodido.

Sobre a imprensa:

Eu meio que gosto de ser atacado. “Bukowski é nojento!”. Isso me faz sorrir, sabe, eu gosto. “Oh, ele é um escritor horrível!” Eu rio mais. Eu meio que me alimento disso. É quando um cara e me diz “Ei, sabe, estão ensinando sobre você nessa e naquela universidade”, meu queixo cai. Eu não sei... ser muito aceitado é aterrorizante. Você sente que fez algo errado.

Eu gosto das coisas ruins que são ditas sobre mim. Isso aumenta as vendas dos livros e me faz sentir demoníaco. Eu não gosto de me sentir bem por que eu sou bom. Mas mau? Sim. Isso me dá uma outra dimensão. (Mostrando seu dedo mindinho da mão esquerda) Já viu esse dedo antes? (O dedo parece paralizado, numa posição formando um “L”). Eu o quebrei numa noite, estava bêbado. Não sei como, mas... eu acho que não ficou na posição certa. Mas, ele encaixa perfeitamente bem para a tecla “a” (da sua máquina de escrever) e... que diabos... isso acrescenta particularidades à minha pessoa. Veja, agora eu tenho particularidades e dimensão. (Ele ri)

Sobre bravura:

As pessoas tão aclamadas como pessoas bravas tem falta de imaginação. Não conseguem imaginar o que aconteceria se algo desse errado. Os verdadeiramente bravos superam sua imaginação e fazer o que eles tem que fazer.

Sobre medo:

Não sei de nada sobre isso (Ele ri)

Sobre violência:

Eu acho que a violência é muitas vezes mal interpretada. Certa quantidade de violência é necessária. Existem em todos nós uma energia que precisa de uma válvula de escape. Eu penso que, se a energia é acumulada, nós ficamos loucos. O estado de paz completa e final que todos nós desejamos não é um estado desejável. De alguma maneira, em nossa construção, não foi feito pra ser assim. É por causa disso que eu gosto de ver lutas de boxe e por que, nos meus dias de jovem, gostava de brigar em becos. “Expulsão de energia honradamente” é, às vezes, chamado de violência. Existe a “loucura interessante” e a “loucura deplorável”. Existem boas e más formas de violência. Então, na verdade... é um termo inadequado. Não permita que isso deixe as outras pessoas parecerem muito tolas, e está bem.

Sobre dor física:

Quando eu era menino, eles costumavam me furar. Eu tinha essas grandes bolhas. Você se torna mais resistente por causa da dor física. Quando eu estava no hospital central e eles estavam me furando as bolhas, um cara entrou na sala e disse “Nunca vi uma pessoa encarar a agulha dessa maneira tão tranqüila”. Isso não é bravura – se você sofrer muita dor física, você acostuma – é um processo de ajuste.

Com dor mental não da para se acostumar. Fique longe disso.

(fim da parte 4)


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